festival avanca 2009
 PROGRAMAÇÃO  

MERETRIZES DO PORVIR
Videoarte


Comissário: Prof. Dr. Paulo Bernardino
Obras de Diana Tavares, Raquel Carrilho, Teresa Magalhães e Teresa Melo

Temos vindo a tentar definir o que é a vídeoarte, desde os seus primórdios, devido ao seu ecletismo essencial. Pelo facto de inspirar-se, ao aproximar-se, dos diversos meios através do quais temos vindo a assistir à afirmação do que é a arte, a vídeoarte tem sido associada à circulação tecnológica, pelo facto de ter evoluído paralelamente ao aumento do acesso, também por parte dos artistas, às tecnologias - desde a edição, que passou a ser executada em computadores, até à manipulação da imagem proporcionada por estes, temos alinhadas as transformações técnicas que têm vindo a influenciar o vídeo. Grande parte das obras apresentadas em suporte vídeo podem ser classificadas como obras digitais, na medida em que no seu todo se vão tornando em processos multimédia. Procuramos abordar a vídeoarte dentro de um contexto mais lato, que pode ser aferido como media-art (exposta a novas vias de exploração artística, que se pode stressar a cada nova invenção tecnológica; que convida o espectador a colocar dispositivos aparelhados de sensores prontos a integra-lo na obra).
Qualquer definição que se procure arranjar para a  vídeoarte deve ter em consideração a complexa e criativa tensão existente entre vídeo-artista  e vídeo-activista. A vídeoarte, de um modo geral, tem vindo sistematicamente a misturar um radicalismo social assente em minorias politicas (compreendendo, inclusive, uma estética de abordagem do feminino),  como uma atitude artística, com o intuito de produzir obras (vizinhas a um estilo documentarista) expostas através de questões formais advindas do modernismo - particularmente auto-reflexivas e estruturalistas.
Talvez a forma mais simples de caracterizar a vídeoarte se encontre no plano das intenções, sejam elas simplesmente para explorar os limites do próprio meio, ou para fazer um ataque rigorosamente cirúrgico ao espectador da obra, mexendo com as expectativas formais, convencionais, criadas pelo próprio cinema - os trabalhos em vídeoarte não utilizam necessariamente actores, podem não conter diálogos, pode não ter uma narrativa ou enredo discernível...

Meretrizes do porvir
Este tema explora a ideia de que num tempo de transições políticas, sociais, culturais, um tanto dramáticas, as mulheres estão constituindo a vanguarda de uma nova subjectividade. Eles são, supostamente, vistas em termos sociais como quem melhor pode oferecer pistas sobre a maneira de lidar com estas mudanças. Poder, oportunidade e sucesso são atitudes altamente modeladas pelas Meretrizes do porvir – vistas como um tipo de mulher, ainda que jovens, extravagantes pelos seus desejos, ousadias e confiança de tomar a responsabilidade das suas vidas, aproveitando oportunidades, para atingir os seus objectivos.
Os problemas femininos (porventura existenciais, reflexivos e estruturalistas), expostos nos seus desejos e qualidades, voltados para uma mulher resolvida, anuncia o quanto, e quantas, mulheres (jovens) estão decididas, de forma bastante expressa, a assumir uma forma de estar consciente e concreta. A proliferação de informação, nas auto-estradas da comunicação, para se reconhecerem e se fazerem afirmar, sugere que estamos socialmente muito interessados em examinar e aplaudir as suas acções, mas também em perscrutar as suas vidas. Desta forma creio que este interesse em reconhecer e perceber a mulher não é apenas celebrador de um voyeurismo, assim como do seu oposto, mas também é, em parte, regulador. Existe, ao mesmo tempo, como que um processo de controle e expectativa, no acto de perscrutar as mulheres, enquanto proactivas, como os vencedores num admirável mundo novo. Ao sustentar esta condição, enquanto Meretrizes do porvir, também estamos activamente a construir-lhes o desempenhar desse papel - elas têm de desenvolver estratégias individuais e assumir, pessoalmente, a responsabilidade do seu sucesso, fazendo as escolhas certas num meio incerto e mutável.

Prof. Dr. Paulo Bernardino
(Universidade de Aveiro)

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